O que a Bíblia diz sobre a questão ambiental? *

“Mudança climática afetará pobres de países em desenvolvimento”, “faltam recursos para conter mudança climática”, “estudo recomenda preservação da flora para salvar o clima”, “ONU pede que se feche um acordo contra mudança climática”, “alimentação de 1,6 bilhão de asiáticos ameaçada por mudança climática”, “aquecimento global parece adiar nova era do gelo”, “mundo vai entrar em período de resfriamento global”.

Estes são exemplos de manchetes cada vez mais comuns em jornais, revistas e sites e que indicam a importância que a questão ambiental passou a receber na sociedade contemporânea.

E a Igreja de Cristo? Como ela tem se posicionado neste campo? Pensando nisto O Jornal Batista conversou com o diretor executivo da organização A Rocha Brasil, Marcos Custódio.
Segundo Custódio, que é casado e tem um filho, um dos papéis de A Rocha, que é formada apenas por cristãos, é “ajudar a igreja a entender com maior profundidade um momento no qual a questão ambiental e a das mudanças climáticas é parte fundamental do dia a dia do planeta”.

O Jornal Batista – Como a igreja tem se posicionado frente à questão ambiental?

Marcos Custódio – Podemos dividir o posicionamento da igreja neste campo em algumas frentes. A primeira delas é a das organizações cristãs paraeclesiásticas, se pudermos usar este nome. Estas organizações se interessam de uma forma muito contundente pela questão ambiental. De uma forma geral as organizações cristãs, principalmente de ação social, têm se preocupado muito em colocar o meio ambiente em suas agendas. Outro grupo é o formado pelos membros das igrejas. Em muitas comunidades é possível encontrar inúmeras pessoas com interesse por este tema. Considero impressionante que estas pessoas estejam se vinculado a organizações como o Greenpeace, a WWF e a SOS Mata Atlântica, buscando desta forma alternativas para colocar este assunto dentro de suas vidas. Há muitas pessoas nas igrejas interessadas neste tema. Em terceiro lugar há o grupo que lidera as igrejas, a liderança evangélica no geral. Este grupo é o que está mais distante deste tema, talvez porque o mesmo não faça parte hoje da vida eclesiástica. As igrejas hoje têm tantas demandas que os líderes acabam não tendo como acompanhar um assunto que é muito relevante e que diz muito sobre o futuro da humanidade e das culturas. Assim, apesar do interesse de algumas pessoas pelo assunto, estas lideranças não conseguem implantar o mesmo na agenda da igreja. Por outro lado, é necessário considerar que a agenda atual da liderança pastoral é muito extensa e complexa, o que faz com que o pastor acabe não conseguindo ter uma visão estratégica que lhe permita perceber quais são os grandes temas para se trabalhar hoje.

OJB – No seu entendimento, de que forma esta questão é tratada na Bíblia?

Custódio – Caso olhemos a Bíblia perceberemos que a questão ambiental não é um assunto periférico, mas é algo que tem que estar no cerne da prática cristã. Pensando nisto afirmo que devemos resgatar alguns valores da própria igreja cristã com relação à criação. Trazer isto para dentro das igrejas talvez seja o grande desafio para uma organização como a nossa. Você pode ver em Gênesis 2.15 que Deus colocou o homem no jardim para cuidar dele e o cultivar, para ser o grande mordomo (administrador) da criação. Eu digo para algumas pessoas que o papel principal do homem na criação é cuidar daquilo que Deus criou, não fazer o que ele quiser com aquilo que Deus criou. Já em Gênesis 1 você aprende que Deus cria a partir do nada e no final de cada dia ele atribui valor a aquilo que fez. Já no último dia ele usa o superlativo indicando que a sua criação é muito boa. Deus dá então um papel claro para o homem no processo da criação, o de cuidar. Quando o homem cai ele se distancia e perde a relação que tinha com o Criador e com a criação. A partir disto começam vários processos que são distorcidos. Um deles é o processo da relação com a criação, e a terra passa a ser maldita, pois o homem não tira apenas o que é suficiente para a sua existência. Entretanto, ele começa a explorar a terra como uma forma de preencher o seu vazio, de preencher a sua ganância. Um exemplo é o de Caim, que cria a primeira cidade em um contexto de desobediência do homem. Deus cria um jardim e o homem, em sinal de desobediência, cria uma cidade. Hoje vemos a antítese entre cidade e jardim. Deus vem para trazer o jardim para dentro da cidade. Aí começamos a perceber o processo de salvação, pois preciso resgatar não apenas o homem, mas toda a criação. Em Romanos 8.19-22 Paulo afirma que a criação espera a manifestação dos filhos de Deus, no sentido de que nós seremos agentes nesse mundo da salvação de Deus para todos os seres criados. Além disso, há alguns profetas que falam das consequências que enfrentamos hoje por causa do pecado. Os problemas ambientais são consequências diretas do pecado do homem. Oséias 4.1-3 mostra que os pecados do homem trazem morte para os seres viventes, incluindo os animais da terra, os peixes do mar e as aves do céu. Demonstra que toda a criação sofre por causa da desobediência do homem. Já em Colossenses 1.17 Paulo mostra que Jesus vem para a salvação de toda a criação, pois todas as coisas foram criadas por ele e para ele. Assim, o processo de salvação é tanto para todas as coisas que estão na terra como para as que estão nos céus. A Bíblia é clara ao afirmar que Deus vem para resgatar tudo o que criou através do homem, o agente de Cristo. Infelizmente existe uma visão escatológica que afirma que devemos destruir este mundo para acelerar a volta de Jesus. Creio que é exatamente o contrário. No Apocalipse encontramos a Nova Jerusalém, que possui um jardim no meio do qual está a Árvore da Vida. É importante perceber que Deus redime o homem honrando a construção humana, mas colocando o jardim no centro da cidade.

OJB – Quais os maiores desafios do campo ambiental?

Custódio – Acho que um ponto primordial quando se fala de meio ambiente é que precisamos rever nosso estilo de vida. Falamos muito da conservação da Amazônia, mas o grande desafio da humanidade hoje é rever o seu estilo de vida. Nós gastamos demais, consumimos demais, compramos demais e nos preocupamos de menos. Preocupamo-nos com a Amazônia, mas gastamos água como se fosse haver este recurso para sempre. Nós pensamos na Amazônia, mas compramos móveis de madeira sem nos preocuparmos com a origem desta madeira, nós falamos em conservar a Amazônia, mas compramos produtos derivados da soja sem saber de onde este produto se origina. Então, o grande desafio hoje é esta mudança de estilo de vida. Se cada pessoa assumir uma mudança significativa nós podemos mudar o mundo literalmente. Um exemplo interessante aconteceu na Igreja Unida do Canadá, uma denominação de 600 mil membros. Ela decidiu boicotar o uso de água mineral, pois a água no Canadá tem uma ótima qualidade, o que fazia com que não houvesse razão para se comprar água engarrafada. Assim toda a denominação decidiu não comprar mais água engarrafada. As pessoas viram os aspectos cristão e social da questão e decidiram mudar, quebrar um paradigma, agir de uma forma concreta. Caso mudemos nossos hábitos temos a chance de mudar todo o processo que existe hoje de degradação do meio ambiente. Todas as organizações ambientais percebem a igreja como um ótimo agente de mudança da sociedade, pois o cristão já é extremamente mobilizado por questões de fé. Assim, existe a expectativa de que a igreja assuma o papel de liderar este processo de mudança deste estilo de vida, até porque o estilo de vida atual é muito pouco cristão quando se consideram os hábitos de consumo.

OJB – E caso não haja uma mudança efetiva de paradigma, o que esperar?

Custódio – Caso não realizemos uma mudança nos níveis de consumo, ou pelo menos uma reavaliação dos ciclos de produção, teremos uma escassez de recursos gigantesca em todos os sentidos, pois consumimos hoje mais do que o planeta pode renovar. Assim, a primeira coisa que os cientistas afirmam é que se não houver uma mudança vai faltar muita coisa. Vai faltar água, vai haver uma queda na produção de alimentos e vai haver um problema sério de energia. Essa é a questão inicial, a dos recursos naturais finitos.
A segunda questão é a da mudança climática, que está deixando o clima mais hostil. Vamos ter que conviver cada vez mais com desastres naturais que causarão muitas dificuldades aos seres humanos. Isto sem contar com o aquecimento global, que pode levar a consequências imprevisíveis. O certo é que este fenômeno levará a mudanças drásticas no planeta, como o aumento do nível dos mares, o que causará uma grande migração de pessoas. Por exemplo, caso o aquecimento global continue sem uma mudança sistemática, daqui a 100 anos a cidade do Rio de Janeiro vai estar praticamente toda debaixo d’água. Considere que 70% da população do mundo mora a até 100 quilômetros do litoral, que 200 milhões de pessoas venham a ter problemas diretos por causa do aumento do nível do mar, que alguns países insulares e algumas ilhas venham a deixar de existir. Porém, há muita gente alarmista hoje. De uma forma geral o que existe é uma situação complexa, pois caminhamos para um mundo mais hostil. Entretanto, há possibilidade de encontrarmos alternativas caso aconteça uma mudança de paradigmas de estilo de vida e de consumo. Por exemplo, é necessário investir em tecnologias que sejam mais baratas e inteligentes. Ao invés de investir fortunas na produção de automóveis, deve-se investir fortunas no desenvolvimento de transportes coletivos de massa. Precisamos mudar muito do nosso estilo de vida. Porém é necessário ter claro que com estas atitudes iremos sofrer menos, mas iremos sofrer, pois o mundo já está mudando.

OJB – Como a Rocha pode auxiliar as igrejas nesta questão?

Custódio – No mundo a Rocha trabalha com educação ambiental, conservação do meio ambiente, olhando áreas de risco (com degradação muito grande) e mobilização social. Aqui no Brasil temos trabalhado na parte de educação, pois após muitas conversas percebemos que os cristãos não estavam voltados para a questão ambiental e que há um certo preconceito no meio cristão quando se fala neste assunto. Nós trabalhos com a dinâmica de construção participativa, pois cada comunidade vai ter as suas necessidades e suas oportunidades. Não temos um pacote pronto de atuação. O que desejamos é encontrar igrejas e organizações cristãs que desejem trabalhar com o tema e que queiram trabalha com o tema de forma participativa nas suas comunidades.
Há alguns valores com os quais a Rocha trabalha, o nosso DNA. O primeiro valor que norteia o nosso trabalho é que somos uma instituição de base cristã e que acredita que o ser cristão se preocupa com a questão ambiental. Nós também acreditamos piamente no trabalho comunitário, por meio do qual as mudanças vão acontecer. As comunidades é que serão os agentes de transformação, principalmente nas questões socioambientais. Outro valor que temos é a conservação, pois acreditamos nela e a realizamos. Assim acreditamos que é necessário fazer ciência, pois não se pode cuidar do meio ambiente sem conhecê-lo. A Rocha é uma organização que gera dados científicos por meio dos quais poderá gerar ações realmente relevantes. Outro valor é que não temos um pacote pronto de atuação, mas buscamos compreender a realidade específica de cada comunidade com a qual trabalhamos. Também acreditamos na educação. As pessoas precisam ser sensibilizadas, mobilizadas e educadas para que possam mudar os seus hábitos. E por fim acreditamos na cooperação, pois ninguém faz nada sozinho, mas apenas através de parcerias é possível realizar uma mudança de hábitos e paradigmas. Estes princípios é que nos identificam como organização.

* Matéria originalmente publicada em O Jornal Batista em 20 de setembro de 2009.

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