Jesus e o Freecycle *

No capítulo 3 de Lucas há algo impressionante para aqueles que esperam um mundo melhor. Esse texto apresenta João Batista como o precursor de uma nova ordem mundial: O Reino de Deus. Uma profecia acerca dele, de sete séculos antes, dizia: “os caminhos tortuosos serão retificados (…) e toda carne verá a salvação de Deus” (versículos 5-6). João era um profeta que falava a verdade de Deus e foi o último mártir do pré-cristianismo.

A prova de arrependimento é essencial na pregação de João. Assim como a cobra foge do perigo, mas não deixa de ser cobra, aquela “raça de víboras” queria escapar à ira de Deus sem uma mudança de coração (versículo 7). O povo estava tão distante de Deus que nem mesmo sabia como demonstrar arrependimento (versículo 10).

Para uma sociedade cujo deus eram os bens materiais, João foi direto à raiz da idolatria e pronunciou a sentença: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lucas 3.11). Alguma semelhança com a nossa sociedade atual?

Quem não se contenta com o status de “filho de Abraão” e deseja tornar-se um discípulo de João Batista (e por extensão, de Cristo) reconhece em Lucas 3 um fardo leve e um jugo suave.

Libertar-se da dependência dos bens materiais é uma necessidade para pessoas de todas as classes sociais. Um aprendizado para toda a vida. É também uma fonte de grande alegria, à medida que vamos deixando aquele a quem chamamos Senhor dominar sobre nossas preocupações mais básicas. Jesus não deu estatísticas, mas talvez os “gentios” passassem 90% do tempo pensando em “necessidades básicas” (Mateus 6.32). Se deixarmos Deus reinar sobre nossa “comida, bebida e roupa”, quanto tempo sobra para pensar no Reino!

Um exemplo contemporâneo de “repartir as duas túnicas” é a rede Freecycle. Esse movimento teve início nos Estados Unidos com um grupo de pessoas interessadas em doar bens dos quais não necessitam mais, ao invés de simplesmente descartá-los. Quem tem algo de que não precisa informa ao seu grupo local. Quem precisa de algo também informa. Tudo livremente: É proibido pedir ou oferecer dinheiro ou serviços. Assim, todos são encorajados a partilhar com outros uma parte do que têm e de que não necessitam. A longo prazo, isso tende a gerar uma sociedade de pessoas menos dependentes dos bens materiais.

Durante alguns meses fui membro do grupo Freecycle de Lisboa, e pude constatar que realmente funciona. Minhas dúvidas foram esclarecidas na prática. Há pouco tempo iniciei um grupo na minha cidade (Alcobaça, Portugal) e, com pouca publicidade, já somos 85 associados. Já foram oferecidas coisas como livros, CD’s, monitores de vídeo, peças de computador e carrinhos de bebê, além de muitas dicas para reciclar e poupar o ambiente e o bolso.

Encorajo o leitor a se juntar a um grupo Freecycle, ver como funciona e depois começar um em sua cidade! E vamos pensando. Certamente Lucas 3.11 não se esgota por aqui.

JÚLIO REIS
Membro da Igreja Batista de Alcobaça, em Portugal

* Artigo publicado na edição da revista Ultimato de Setembro-Outubro de 2008.

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Uma resposta para Jesus e o Freecycle *

  1. Josias Siqueira disse:

    Gostei muito do texto sobre o freecycle! Só achei um pouco estranho usar o “termo nova ordem mundial” em referência a João Batista.

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