Mordomia da terra

“Eis que o Senhor esvazia a terra e a desola, transtorna a sua superfície e dispersa os seus moradores (…) Na verdade a terra está  contaminada debaixo dos seus habitantes; porquanto transgridem as leis, mudam os estatutos e quebram o pacto eterno” – Isaías 24.1-5.

Estamos vivendo um quadro de problemas sócio-ambientais cujas cores mais fortes são a escassez de água potável, poluição,  alterações climáticas, extinção de espécies animais e vegetais e esgotamento das fontes de energia. Esse quadro vem sendo pintado há muito tempo pela espécie humana, pois, para sobreviver, ela foi  obrigada, desde sua origem, a produzir seus próprios meios de subsistência, transformando a natureza ou intervindo nela. Os primeiros rabiscos do quadro atual foram feitos a partir do extrativismo madeireiro e das economias primitivas, baseadas na caça, na pesca e na colheita. Em cada estágio da humanidade ele foi se acentuando, assumindo contornos mais intensos no século XX, principalmente no pós-guerra, quando o modelo de desenvolvimento, baseado na industrialização, foi implementado em diversos países. A intensificação do uso dos recursos naturais, a urbanização acelerada e o uso de pesticidas provocaram diversos transtornos.
Em Isaías 45.18b temos a afirmação de que Deus criou a terra e a edificou, não para ser um caos, mas para ser habitada. Esse propósito de Deus pode ser percebido, de forma clara, em Gênesis, na narrativa do processo de criação do Universo.

Quando Deus finalizou a criação designou cuidadores, pois Ele sabia que era necessário que alguém cuidasse dos rios, dos mares, das florestas, do ar e das pessoas. No entanto, por uma série de fatores, os rios e os mares estão sendo destruídos por dejetos, as florestas devastadas por incêndios e desmatamentos criminosos, o ar, em muitas cidades, está poluído por emissão de gases poluentes e as pessoas morrem de fome, sede e doenças. Esse quadro de desolação tem mobilizado pessoas e instituições em diversos países desde os anos 60.

As igrejas evangélicas, de uma maneira geral, não têm participado, de forma efetiva, dessa mobilização, seja a nível local, nacional ou planetário. Não se trata de elaborar documentos, agendas ou realizar eventos. Trata-se de incentivar mudanças nos valores e nas atitudes de cada uma, e cada uma em relação ao planeta terra, tendo como referência a Palavra de Deus. Estamos nos referindo à mordomia da terra, cujas bases encontram-se na Bíblia e estabelece como verdade que Deus é o Senhor, o dono de tudo quanto existe na terra e no céu, e concedeu ao homem o privilégio e a responsabilidade de administrar.

O objetivo desse artigo é sensibilizar e mobilizar as irmãs e os irmãos para a necessidade de a igreja participar do processo de superação dos problemas sócio-ambientais e construção de sociedades sustentáveis, através do exercício da mordomia da terra.

Breve histórico da questão ambiental

As questões sócio-ambientais vem sendo discutidas desde os anos 60, quando alguns na Europa, Ásia e Estados Unidos apontaram para o surgimento de uma crise: Contaminação do ar em Londres e Nova York, casos fatais de intoxicação com mercúrio em Minamata e Niigata, diminuição da vida aquática em alguns grandes lagos norte-americanos, morte de aves provocada pelos efeitos colaterais do DDT e outros pesticidas e contaminação do mar causada pelo naufrágio do petroleiro Torrey Canyon.

Esses sinais mostraram que estava havendo uma violação dos princípios ecológicos, ameaçando a vida e colocando em jogo a sobrevivência da própria humanidade. Diante dessa situação, diversas pessoas se mobilizaram. Tal mobilização fez com que fossem organizados diversos eventos, dentre os quais destacam-se: Publicação do livro “Primavera Silenciosa” (1965), criação do Clube de Roma (1968), publicação do Relatório dos Limites do Crescimento pelo Clube de Roma (1972) e realização da 1ª Conferência das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente (1972).

A 1ª Conferencia das Nações Unidas sobre Meio Ambiente recomendou que os países criassem órgãos para cuidar do meio ambiente e implementassem programas de educação ambiental,  como forma de evitar o aprofundamento da crise ambiental, detectada na década anterior. Essa recomendação foi acatada por diversos países, incluindo o Brasil.

Apesar desse procedimento os problemas ambientais se intensificaram, sobretudo no decorrer dos anos 80, de tal forma que a sociedade civil, através de ONGs, e os governantes de diversos países se mobilizaram para encontrar soluções. A magnitude da nova crise foi sistematizada no Relatório Brundtland. Segundo o relatório, a crise era complexa e a superação da mesma exigia a construção de um novo modelo de desenvolvimento. Surge então o conceito de desenvolvimento sustentável.

Esse conceito, que significa crescimento econômico com justiça social e proteção do meio ambiente, foi discutido na 2ª Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, evento realizado em 1992 no Rio de Janeiro. As diretrizes para a construção da sustentabilidade foram sistematizadas na Agenda XXI, e cada país deveria construir sua agenda, de acordo com suas especificidades.

Todas essas medidas visavam o enfrentamento da crise sócio-ambiental. Decorridos quase 15 anos constata-se que elas foram insuficientes. As metas estabelecidas não foram cumpridas, levando ao surgimento de um quadro preocupante. Esse quadro pode ser resumido nas chamadas situações sócio-ambientais críticas: Ameaça de esgotamento das fontes de água limpa, mudança climática, perda da biodiversidade, poluição e redução dos recursos energéticos.

O exame de cada situação nos revela porque elas são consideradas críticas:
Cerca de 2 bilhões de pessoas não têm acesso a água potável no planeta, e segundo projeções da ONU, se nada for feito, no ano de 2050 um quarto da humanidade não terá água para suas necessidades mínimas. Se isso acontecer, nenhuma região será poupada do impacto dessa crise, que afeta todos os aspectos da vida, da saúde das crianças, passando pela sobrevivência de diversas espécies animais e vegetais, até a capacidade das nações de providenciar os meios de desenvolvimento.

A Terra está aquecendo lentamente. Os anos 90 foram os mais quentes desde que as temperaturas do planeta começaram a ser monitoradas, no século XIX. Cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas estimam que a temperatura ainda vai subir 3º C neste século. Esse fenômeno provoca mudanças drásticas na dinâmica do planeta, provocando acidentes naturais e intensificação das doenças associadas às altas temperaturas. Nos anos 90, 665 mil pessoas morreram devido a desastres naturais, mais de 90% em virtude de inundações e secas prolongadas.
Nos últimos 500 anos 840 espécies catalogadas de seres vivos foram extintas.

A concentração de gás carbônico da atmosfera cresceu 30% nos últimos 150 anos, e as mortes relacionadas ao ar poluído chegaram a 3 milhões por anos. O consumo de energia aumentou 32 vezes no último século.

A conjugação dessas situações ambientais críticas provoca sérios danos e faz com que o planeta perca, de forma acelerada, suas condições de habitabilidade.

A magnitude desses problemas levou a novas mobilizações, cujo objetivo é fazer com que haja um maior empenho na construção de  sociedades sustentáveis. Atualmente, governos, empresas e ONGs se unem na busca de soluções. A Organização das Nações Unidas instituiu o período de 2005-2015 como a Década da Educação para a Sustentabilidade.

A implementação da Década segue as orientações do capitulo 36 da Agenda XXI, que apresenta 4 premissas concernentes à educação para a sustentabilidade: Promoção e melhoria da educação básica, reorientação da educação existente em todos os níveis em direção ao desenvolvimento, treinamento de todos os setores trabalhistas de modo que possam contribuir para a sustentabilidade local, regional, nacional e planetária e desenvolvimento de um entendimento público e consciência da sustentabilidade.

A década se constitui num conjunto de parcerias que procura reunir uma grande diversidade de interesses e preocupações. É um instrumento de mobilização, difusão e informação. Trata-se também de uma rede de responsabilidades pela qual governos, organizações internacionais, sociedade civil, setor privado e comunidades locais ao redor do mundo podem demonstrar seu compromisso prático de aprender a viver sustentavelmente. Fundamenta-se na visão de um mundo onde todos tenham a oportunidade de se beneficiar da educação e de aprender os valores, comportamentos e modos de vida exigidos para um futuro sustentável e para uma transformação positiva da sociedade. Isto é traduzido em cinco objetivos: 1. Valorizar o papel fundamental que a educação e a aprendizagem desempenham na busca comum do desenvolvimento sustentável; 2. Facilitar os contatos, a criação de redes, o intercâmbio e a interação entre as partes envolvidas no programa educação para o desenvolvimento sustentável; 3. Fornecer o espaço e as oportunidades para aperfeiçoar e promover conceito desenvolvimento sustentável e a transição a ele por meio de todas as formas de aprendizagem e de sensibilização dos cidadãos; 4. Fomentar a melhoria da qualidade do ensino e da aprendizagem no âmbito da educação para o desenvolvimento sustentável; 5. Desenvolver estratégias em todos os níveis, visando fortalecer a capacidade no que se refere à EDS.

Governo, empresas, ONGs e sindicatos estão se envolvendo. E as igrejas evangélicas? De uma maneira geral não tem participado. Está na hora de participar, tendo como referência o exercício da mordomia da terra, cujos princípios encontram-se na Bíblia.
 
Mordomo, servo principal, o que administra a casa do seu Senhor

A palavra mordomo, em português, vem do latim majordomus, que tem o mesmo significado do grego oikonomos (oikos, casa, e – nomos, governo). Major, em latim, é maior ou principal, e domus, casa, a casa com tudo que ela contém e significa. Assim mordomo é o principal servo, o que administra a casa do seu senhor. Numa perspectiva bíblica mordomia é o reconhecimento da soberania de Deus, a aceitação do nosso cargo de depositários da vida e das possessões e administração das mesmas de acordo com a vontade de Deus.

O Senhor da casa

O senhor da casa é Deus. Essa verdade está presente em toda a Bíblia, como mostram os textos a seguir: “No principio criou Deus o céus e a terra” (Gênesis 1.1). “Do senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam. Porque Ele a fundou sobre os mares e a firmou sobre os rios” (Salmo 24.1-2). “Pela palavra do Senhor foram feito os céus e todo o exercito deles pelo sopro da sua boca. Ele ajunta as águas o mar como num montão; põe em tesouros os abismos. Tema ao Senhor a terra toda; temam-no moradores do mundo. Pois Ele falou e tudo se fez” (Salmo 33.6-9).

A casa

Em Isaías 45.18 temos a afirmação de que Deus criou a terra e a edificou, não para ser um caos, mas para que fosse habitada. Esse propósito de Deus pode ser percebido, de forma clara, em Gênesis, na narrativa do processo de criação do mundo. A leitura mostra que Deus estabeleceu um roteiro com uma sequência lógica de providências e cuidados, que garantissem, a todos os seres vivos, as condições de sobrevivência.

Os principais pontos do roteiro foram os seguintes: Criação da luz, com distinção entre o dia e a noite, separação das águas, através do estabelecimento do firmamento, separação entre as águas e a terra seca (terra, mares), criação da cobertura vegetal (relva, ervas, ervas  que dão semente, árvores frutíferas) e criação dos luminares para estabelecer o dia e a noite, as estações e os dias.

Casa em perfeitas condições e com habite-se dado pelo próprio construtor: E viu Deus que era bom. O texto “ Saber cuidar: ética do humano:compaixão pela Terra” de Leonardo Boff nos dá uma ideia dessas condições: “A terra apresenta singularidades surpreendentes. Ela tem uma iluminação solar nem demasiadamente fraca como Marte, nem demasiadamente forte, como Vênus e Mercúrio. É o único planeta que possui grande quantidade de água líquida. Demonstra regularidade de temperatura, ritmos de evolução e suficiente estabilidade para conservar a água em estado líquido, propiciando condições excelentes para o surgimento de seres complexos e vivos. Se a Terra tivesse uma órbita demasiadamente elíptica que nos afastasse e periodicamente nos aproximasse do sol, ou se pertencesse a uma estrela dupla, dificultaria, quem sabe, ou até  impossibilitaria a existência da vida na Terra”.

Os moradores da casa

Essas primeiras providências divinas (luz, água, terra seca e alimentos) foram fundamentais para a existência dos seres vivos. Somente depois desses cuidados é que Deus colocou as espécies em seus habitats: Povoou os mares e o espaço, criou os animais domésticos, répteis e animais selvagens, criou o homem e a mulher.

Principal servo da casa

Quando Deus finalizou o processo de criação designou cuidadores, pois Ele sabia que era necessário que alguém mantivesse o padrão de qualidade de rios, mares, florestas, ar e pessoas. Para isso houve um processo de seleção, e os escolhidos foram as mulheres e os homens. Infelizmente nós não cuidamos da terra como deveria, e isso resultou no seguinte quadro de degradação social e ambiental.

Exercendo a mordomia da terra

Pedir perdão a Deus por nossa Negligência em relação à sua criação. Reconhecer a grandiosidade da obra divina. Enaltecer a Deus por suas obras, Agradecer a Deus por ter sido colocado em tão alto posto. Cuidar da obra de forma a satisfazer o Senhor.

Para isso é necessário reconhecermos que fomos escolhidos  por Deus para cuidar da sua criação e executar essa tarefa, de forma  diligente. Consciente dessa incumbência devemos, então, desenvolver uma ética do cuidado.

Precisamos também desenvolver uma atitude de preocupação e inquietação com as situações ambientais críticas. A inquietação deve focalizar não só os problemas, como também os fatores que causam esses problemas e as várias implicações dos mesmos para o planeta. É importante que sejamos capazes de identificar, com clareza, o que provoca o esgotamento da água limpa e as consequências dessa situação para todas as espécies. Precisamos nos capacitar através de programas de educação ambiental.

Precisamos agir. As questões socioambientais precisam ser incorporadas às áreas de atuação das igrejas e os evangélicos  precisam ser capacitados, através de cursos de educação ambiental, para cuidar do belo mundo criado por Deus, de forma que ele não seja um caos, mas um local de habitação para todas as espécies.

Os homens e as mulheres não foram chamados para dominar, ameaçar e destruir as demais espécies, mas sim para garantir as condições de habitabilidade para todos os seres vivos. Precisamos fazer com que a terra volte a ser um local habitável.

LOUDERS BRAZIL

Anúncios
Esse post foi publicado em Artigo, Igreja, Sustentabilidade. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Mordomia da terra

  1. Samuel disse:

    Muito inspirador este texto. Espero que como membros participantes do Corpo possamos dar inicio a verdadeira mordomia e apliquemos a visão sustentável!

    Abraço

  2. Pingback: Mordomia da Terra | Mantenedor da Fé

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s