Os batistas e a ecologia

O estilo de vida contemporâneo é resultado direto de uma mentalidade que rompe com a Idade Média e que é patrocinada, dentre outros, por Francis Bacon e René Descartes, pois colocam a relação do ser humano com o mundo sob o paradigma de sujeito-objeto. Com essa ideologia a Ciência triunfa sobre a natureza, ignorando os seus limites e espaços. A proposta é subjugar a natureza ao conhecimento científico, não importando as consequências. A questão ecológica é deixada de lado e o mundo é o objeto a ser desvendado. Este paradigma teve seus resultados benéficos, mas também os maléficos, como os que presenciamos hoje.

O Protestantismo, de modo geral, é fruto da modernidade. Portanto, compartilha dessa ideologia. Com a ênfase no indivíduo e no processo de dessacralização do mundo (planeta Terra), o planeta passou a ser visto apenas como algo útil. A natureza passa a ser matéria-prima para a atividade humana. Decorre disso a completa omissão para com a criação e a falta de uma espiritualidade ecológica. O Protestantismo, como um dos protagonistas do sistema capitalista (segundo Max Weber), contribuiu e muito para o atual sistema exploratório da Terra quando adotou a cosmovisão utilitarista ao invés da bíblica, que apresenta a noção de mordomia e corresponsabilidade para com o meio ambiente.

A atividade econômica do sistema globalizado capitalista – quando se atém ao lucro e não respeita a diversidade da vida, a formação geográfica natural de um lugar, a nascente de um rio, a biodiversidade do planeta Terra – está ignorando a presença de Deus na criação, além de negar, peremptoriamente, que o ser humano não é parte integrante do ecossistema. Parece que muitos ainda não perceberam de que “quando a última árvore for abatida, quando o último rio for envenenado, quando o último peixe for capturado, somente então nos daremos conta de que não se pode comer dinheiro” (cacique norte-americano Sattel). O clima pede socorro, e os mordomos de Deus na criação ignoram esta tarefa quando discutem tantas outras questões e esquecem o que está aí, a vida e suas mazelas causadas, na sua maioria, pela ganância humana.

A narrativa bíblica da criação nos apresenta a superação de tensões, entre humanidade e natureza, e oferece caminhos para um viver harmonizado com Deus, com o outro e com a natureza. A criação é fruto do amor de Deus. Com o ato de criar, Deus permanece junto à sua criação, sustentando e se relacionando com toda a obra criada. Sendo assim, a criação está toda interligada, numa relação de interdependência, Deus-Terra-humanidade.

Com a Carta de Niterói, sobre o meio ambiente, os batistas brasileiros, reunidos para a 91ª Assembleia da Convenção Batista Brasileira (CBB), na cidade de Niterói (RJ), estabelecem marcos de uma novo momento de reflexão sobre a atuação pastoral da igreja no meio ambiente. Isto é salutar, pois ainda carregamos estigmas de uma velha ideia de que Deus está interessado apenas na alma do indivíduo, se esquecendo de que ele é um ser integrado numa sociedade e no meio ambiente. A Carta de Niterói abre espaço para a igreja refletir sobre a sociedade em que está inserida e para apresentar propostas para amenizar o problema. É possível organizar uma coleta seletiva, ou ainda apresentar projetos junto às autoridades políticas da cidade para uma maior conscientização em relação ao meio ambiente. Há diversas atividades que podem ser realizadas para contribuir para atenuar os dilemas ambientais.

O momento é de reflexão sobre o tema. É inadmissível que aqueles que creem que Deus é criador não ajam como mordomos da obra de Suas mãos. Esperamos, sinceramente, que artigos, textos, impressos e online, sejam elaborados sobre isso. É bom saber que já há um blog com o título Vida e Meio Ambiente – www.vidaemeioambiente.wordpress.com –  tornando possível o acesso a textos e artigos de opinião sobre o tema. Que possa haver revistas de EBD com a temática, pastores pregando, teólogos discutindo e elaborando fóruns de debate, este é o momento. A CBB já deu o início, resta agora aprofundarmos a discussão. Que seja reivindicando, protestando, trabalhando, refletindo, cuidando, o que não podemos mais é ficar inertes diante do tema.

PASTOR ALONSO GONÇALVES

* Matéria originalmente publicada em O Jornal Batista em 20 de fevereiro de 2011.

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